Este sábado (30 de agosto de 2025) marcou a despedida de um dos grandes escritores brasileiros: o porto-alegrense Luis Fernando Verissimo, que também faz parte da história de O Jornalecão. Em agosto de 1995, há exatos 30 anos, Verissimo concedeu entrevista publicada na edição nº 51 do porta-voz da Zona Sul de Porto Alegre. Em um bate-papo descontraído com o editor do jornal, Gustavo Cruz da Silveira, que, na época, era estudante de jornalismo, o escritor falou um pouco sobre sua vida, carreira, gostos, opiniões e prazeres. Algum tempo depois, a partir da edição Nº 63, de Março de 1997, Veríssimo oportunizou aos leitores, por alguns anos, a leitura de algumas de suas famosas crônicas nas páginas de O Jornalecão.
Como forma de homenagem ao ilustre colaborador, relembramos, a seguir, sua entrevista a O Jornalecão, de Agosto de 1995:
“Eu não sou escritor e sim jornalista”
Luis Fernando Verissimo, 59 anos, escritor, porto-alegrense, morador do bairro Petrópolis e filho do escritor Erico Verissimo. Já é alguma coisa, mas é muito pouco para defini-lo.
Luis Fernando Verissimo se diz jornalista, mas o que todos sabem é que escreve crônicas em grandes jornais do país que são quase uma unanimidade nacional. O que nem todos sabem é que ele não gosta muito de escrever (gosta mesmo é de pintar), não sabe qual é o segredo de escrever bem, inclusive confidenciando que para ele não é fácil escrever, como muitos imaginam.
Nesta entrevista, ele fala um pouco sobre sua vida, carreira, gostos, opiniões e ainda sobre um de seus prazeres: as viagens.
O Jornalecão: Fale um pouco sobre sua vida.
LFV: Eu nasci há 59 anos, aqui em Porto Alegre, na Beneficência Portuguesa. Nós ainda não morávamos nesta casa, aqui na rua Felipe de Oliveira e sim no centro da cidade, mas estamos nesta casa há mais de 40 anos. Sou o segundo filho, tenho uma irmã mais velha, Clarissa. Meu pai, Erico Verissimo, era um escritor. Quando eu nasci, ele não vivia exclusivamente de livros. Em seguida, passou a viver de seus livros, sendo um dos poucos escritores profissionais do Brasil, onde, infelizmente, ainda não existe a profissão escritor. Com raras exceções, ninguém vive de livros.
Passei a primeira infância em Porto Alegre. Viajamos para os Estados Unidos quando eu era garoto, tinha uns sete anos. Ficamos dois anos. Depois, na pré-adolescência, nós voltamos aos Estados Unidos, ficando quatro anos. E fora esta experiência americana, não tenho mais nada diferente na minha vida que possa interessar. Não me formei em nada. Saí da escola sem me formar. Comecei a trabalhar em jornalismo, um pouco tarde, já com 30 anos, depois de tentar muitas coisas. Quando comecei no jornalismo, não precisava ainda ter diploma para ser jornalista. Podia entrar como estagiário, foi o que eu fiz. Desde então, tenho vivido como jornalista, fazendo crônicas, publicando livros de crônicas. Sou casado com a Lúcia, que conheci no Rio de Janeiro, numa das temporadas que passei lá. Temos três filhos.
O Jornalecão: Até onde estudaste? Por que não continuaste?
LFV: O que me atrapalhou um pouco foram estas idas aos Estados Unidos. Eu me formei lá nas chamadas High School, que correspondem aqui até o nosso 2º ano secundário, eu acho. Se bem que eu já nem sei bem como é a divisão na escola. Na minha época, se chamava o clássico ou científico, depois do ginásio. Eu me formei lá e, para continuar aqui, eu acho que teria que fazer o último ano do secundário, ainda. Mas eu não quis fazer porque era vagabundo e não queria estudar. Então, resolvi não estudar mais e comecei a trabalhar.
O Jornalecão: Hoje, te consideras um escritor profissional, ou não?
LFV: Olha, eu gosto quando me chamam de escritor, mas, na verdade, eu não sou escritor e sim jornalista. Se bem que o que eu faço é uma espécie de meio-termo entre literatura e jornalismo, porque é crônica. Crônica pode ser um conto, também pode ser ficção. Pode ser o que a gente quiser. Então, é uma forma de literatura e, ao mesmo tempo, de jornalismo. Mas eu me considero jornalista. Sou jornalista.
“Eu não gosto muito de escrever. Na verdade, eu nem sabia que sabia escrever”
O Jornalecão: Tuas crônicas são quase unanimidade no Brasil, porque elas conseguem passar uma mensagem de uma maneira que pressupõe um final previsível, mas, de repente, dá uma reviravolta total na história e acaba passando uma mensagem diferente, um final inesperado. Como tu analisas esta visão que as pessoas têm das tuas crônicas?
LFV: Bem, na verdade, esta facilidade não existe. Eu não tenho muita facilidade para escrever. Às vezes, as pessoas se surpreendem quando eu digo, mas eu não gosto muito de escrever. Não é uma coisa que eu faço com muito prazer, com muita necessidade. Tem gente que precisa escrever, mas eu gosto mais de desenhar do que escrever. Não escrevo com muita facilidade. Mas a gente se envolve na técnica de escrever. Então, assim, tem umas crônicas que funcionam bem, tem outras que não. A gente escreve muita porcaria também, junto com algumas que são aproveitáveis. Agora, qual é o segredo disto tudo? Confesso que não sei como se faz, não tenho a receita. Eu faço, mas não sei bem como se faz.
O Jornalecão: Então, Luis Fernando Verissimo tem outra vocação? De desenhar também?
LFV: Eu gosto de desenhar. Não sou um grande desenhista, mas é uma coisa que me dá prazer. Sempre gostei muito de história em quadrinhos, quando era garoto… E, até hoje, gosto muito de cartoon e tal. Então, é uma coisa que eu faço com mais prazer do que escrever. Apesar de não saber muito bem desenhar. Meu desenho é muito rudimentar. Não tem grande importância, não.
O Jornalecão: Tu és filho de um grande escritor brasileiro – Erico Verissimo. Tu achas que te isso te influenciou ou te ajudou para ser um grande escritor brasileiro, como ele? Será hereditariedade ou ele te deu algum…
LFV: Não sei se é uma coisa genética, que estava no sangue. Não sei se isto existe ou não. Acho que o fato de ser filho de escritor, indiretamente, influenciou, porque eu sempre vivi numa casa em que o livro era uma coisa importante. Por isto mesmo, eu sempre gostei muito de ler. Agora, talvez tenha, de maneira inibida – isto porque, até os 30 anos, eu nunca tenha escrito nada, a não ser algumas traduções. Na verdade, eu nem sabia que sabia escrever!
O Jornalecão: Por que achavas que, por ser filho de escritor, não serias escritor?
LFV: Não sei, por que não é muito comum, não é? O normal é quando um homem se notabiliza num ramo, o filho não é do mesmo ramo. Não sei se isto é uma regra ou não. Mas eu achava isto e vi que estava enganado, pois acabei sendo e fazendo a mesma coisa.
O Jornalecão: No começo houve facilidade para escreveres para jornal ou editar livros por ser filho de Erico Verissimo ou só o teu talento influenciou?
LFV: Eu acho que o nome ajudou no momento de começar a trabalhar em um jornal, pois fui levado para a Zero Hora por um amigo do meu pai para fazer uma experiência. E, quando comecei a fazer os livros, pelo menos havia aquela curiosidade das pessoas. O nome já criava uma curiosidade nas pessoas. Agora, eu gosto de pensar que o resto foi por causa do talento, pois só o nome não adiantaria mesmo. Ajudaria pra começar, mas não pra continuar. Agora, que ajudou no início, sem dúvida.
O Jornalecão: Os temas escolhidos para as tuas crônicas, em geral, são a classe média. Por que este tema?
LFV: Na verdade, não foi uma escolha consciente. É que acabou saindo. Muito do que eu escrevia era sobre os costumes da família brasileira. Da classe média brasileira, ou da classe alta ou da classe baixa. Em primeiro lugar, porque é o meu ambiente. É onde eu vivo. Também porque eu acho que, para fazer crônica de costumes ou crítica de costumes, tem que pegar mais ou menos a média. Não pode fazer sobre o excepcional. Tem que se fazer sobre o normal, sobre a média. É isso que eu faço, mas não foi uma coisa deliberada, pensada.
O Jornalecão: Onde iniciaste na profissão?
LFV: Foi na Zero Hora. Já um pouco tarde, em 1967. Naquela época, a Zero Hora não era o que é hoje. Era um jornal pequeno. Depois que começou o seu crescimento. Depois saí, passei cinco anos trabalhando na Caldas Júnior, na Folha da Manhã, que não existe mais. Depois, voltei para a Zero Hora e, eventualmente, comecei a publicar também no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Depois, escrevi uma época na revista Veja. E, hoje, continuo na Zero Hora, no Estado de São Paulo, no Jornal do Brasil e, eventualmente, em revistas como a Playboy.
O Jornalecão: Mas, fixamente, seria na Zero Hora?
LFV: Eu sou funcionário da Zero Hora. Tenho uma ligação como funcionário. No Estadão e no Jornal do Brasil, sou colaborador. E da TV Globo também.
O Jornalecão: Como intelectual, o que tu achas da situação da educação hoje em nosso país?
LFV: Eu acho que a educação, como tudo o mais no Brasil, é uma decorrência da nossa situação econômica, este é um país pobre, país miserável, em que 70% da população, praticamente, não têm vida econômica. Então, esta situação se reflete em tudo. O Brasil tem que reorganizar suas prioridades. Priorizar a educação, a melhoria da qualidade de vida, a distribuição de renda, e tudo o mais. E a educação no Brasil, especificamente porque é o que você perguntou, é um reflexo destas prioridades erradas.
O Jornalecão: Teus planos para o trabalho. Pensas em escrever algum outro tipo de literatura?
LFV: Eu já fiz um romance, que se chamava O Jardim do Diabo, publicado alguns anos atrás. Foi minha única experiência fora da crônica, do trabalho jornalístico. Eu gostaria de, eventualmente, escrever outro, mas, para isto, precisaria ter tempo, disponibilidade de tempo e de cabeça. Um romance tem que ser uma coisa mais elaborada, mais pensada do que o trabalho jornalístico. Eu tenho feito algumas experiências em teatro também. Agora mesmo, vou começar a fazer uma peça, uma coisa meio encomendada, mas que eu queria fazer mesmo. E, fora isto, não tenho outros planos, Só continuar fazendo meu trabalho no jornal e, eventualmente, reunindo estes trabalhos num livro.
O Jornalecão: Gostas muito de viajar, não é? Por que gostas de viajar? Para poder desanuviar um pouco, descansar?
LFV: O fato de eu viajar desde pequeno. Aos 7 anos, já fui aos Estados Unidos pela primeira vez, como contei. Depois, quando ainda era solteiro, viajei pela Europa com meu pai. Eu acho que tomei gosto pela viagem. Talvez, se não tivesse começado a viajar desde garoto, não teria este gosto. Mas é só o prazer da viagem, de conhecer lugares novos. Não tem outro objetivo. E férias é para desligar um pouco da realidade. É isso. Eu sempre digo que meu único luxo é a viagem.
O Jornalecão: Além de morar aqui, em Porto Alegre, ficas também muito tempo no Rio?
LFV: É. Eu vivi quatro anos no Rio. De 62 a 66. Voltei de lá já casado e a primeira filha já tinha nascido. Vamos lá seguido, pois a Lúcia é carioca, mas a minha base de operações é Porto Alegre.
Veja também a entrevista digitalizada:
