O cachorro que sabe viver – Por Caco Belmonte

Eu caminhava pela rua Curupaiti, mesma via da famosa figueira centenária cuja sombra, segundo relatos muito antigos, citações em alguns livros e nenhuma documentação histórica comprobatória, abrigou tropas revolucionárias Farroupilhas no cerco a Porto Alegre. Provavelmente, de fato, a árvore deve ter sido ponto de referência para acampamento de tropeiros no século XIX. A poucos metros dali, havia fontes de água brotando do morro granítico, hoje encampadas pelos grandes prédios erguidos na década de oitenta, responsáveis pelo soterramento das águas desviadas para o esgoto pluvial.

Caminhava rumo a um supermercado, e dobrei na Butuí para sair na Icaraí, avenida onde está situado o comércio. Pouco antes da sinaleira com o sinal vermelho, três motos passaram por mim, desacelerando. Atrás delas vinha um cão de porte correndo a toda velocidade, já com a língua de fora. Pensei que fosse um desses cães que mordiscam perna de ciclista e motociclista. Não era. Ele correu até alcançar as motos na sinaleira, parou ao lado de uma delas e pulou com as patas dianteiras no colo do piloto. Ele afagou o cão, o sinal verde foi acionado e as motos partiram. O cusco correu junto em plena avenida, dobrou parelho com as motos pelo meio da pista, rumo à Tristeza. Por alguns instantes andou na mesma velocidade, e logo as máquinas o deixaram para trás, restou o cheiro dos escapamentos. Ele parou, subiu o canteiro no meio da pista dupla e, sapiente e saudoso, ficou observando a moto com o seu amigo homem tomando distância até desaparecer no campo de visão.

Eu observava a tudo e retomei o caminho rumo às compras. Passados dois minutos, o cachorro que sabe viver cruzou por mim. Vinha pela calçada num trote elegante, sem olhar para os lados ou parar e cheirar, como fazem os cachorros comuns. Esse não, com certeza tinha personalidade e parecia o senhor de si.